Foto: Hospital Gracia Orta Almada
Vou tratar esta pessoa tao corajosa por "C." até ter a certeza que pode dar o seu nome neste testemunho. Todos os passo que deu até agora sao de uma enorme força, coragem e determinaçao em lutar contra este sistema de saúde tao injusto, incorrecto, lento e desumano que temos em Portugal.
O Caso diz respeito ao Hospital Garcia da Orta em Almada.
A todos os interessados em ajudar a resolver esta situaçao (em especial a comunicaçao social) por favor contactar-me para sandraalvescampos@gmail.com
Obrigada,
Sandra Campos
Carta:
Exmos srs endereçados nesta carta
Sou cidadão Português residente em Almada e com DPOC em estado muito agravado. Fico cansado de apenas falar e vivo sózinho, sem ninguém que cuide de mim.
No dia 10 de Agosto fui forçado a arrastar-me até à urgência do HGO, onde fiz gasimetrias (gasometria também), colheita de sangue e raio X. Recebi O2 que pouco me fez, como é obvio, e ao catéter foi adicionada uma substancia creio que para a minha situação desesperada.
Por vergonha (devo confessá-lo), regressei ao meu local de residência acreditando que, como outras vezes, os meus pulmões pelo menos conseguiriam com os dias, algum causal mínimo de ventilação que me permitisse psicológicamente afastar o fantasme de poder morrer a qualquer momento só dando por mim se o meu corpo atraísse um mosqueiro excepcional ou o meu cão não parasse de ladrar.
Ilusão. Cada dia senti-me pior e foi assim que passados oito dias aos quais sobrevivi com aerosol quase ininterrupto, me desloquei à Pneumologia do HGO onde pedi para falar com o chefe daquele serviço.
Recebido pelo clínico comuniquei-lhe toda a minha situação e ele confirmou o episódio da urgência de dia 10 onde faltava uma gasimetria mas que posteriormente devido à Sra. Dr. ter anexado ao meu processo, o Gabineto do Utilizador (serviço espectacular) conseguiu localizar.
Referi ao clínico que, derivado o meu elevado grau de incapacidade (todo o esforço era afectado para o acto de meter e retirar algum ar dos pulmões) já considerava entrar em lista para transplante pulmonar. O Clínico disse-me que teria de ser internado para fazer uma bateria de exames e só depois da respeciva análise veria se nada impedia que seguisse o meu processo para STa Marta.
Insisti que estava a agonizar e nem sequer sabia se no dia seguinte seria capaz de sair da cama, quanto mais esperar por vaga para um internamento de dois dias, assim foi falado. Referi que estava disposto a ficar em qualquer lado, até numa maca, num canto ou corredor.
Mostrou-se inflexível referindo que o HGO tem normas e que teria de aguardar vagar uma cama, o que não tardaria mais de uma semana. (podem rir, eu consegui um pouco).
Assim, calendarizado o meu problema como se por determinação do HGO eu estivesse holísticamente impedido de MORRER até ser internado, esperei.
Consegui sobreviver esses sete dias e até mais alguns, aguardando o tal contacto que o clínico apontou durante a nossa "entrevista".
Os Portugueses têm esta capacidade de ser ESTÚPIDOS contra toda a lógica e eu estava a ser a personificação disso. (Podem rir de novo).
Na véspera de perfazer quinze dias (15 !! dias) desloquei-me ao HGO para RECLAMAR desta situação por sentir que não se PODE MANDAR ALGUÉM PARA MORRER EM CASA (ou no caminho para) E FICAR IMPUNE, quer profissionalmente quer judicialmente.
Com grande capacidade e muita insistência, a assistente secretariado demoveu-me de reclamar desta situação (eu arrastava-me) garantindo-me que no dia seguinte o Dr ou alguém da Pneumologia me contactaria.
Nada (Podem rir)
Assim, no dia 27 (vinte e sete!!) regressei ao HGO para pelo menos deixar registado que estive lá a mendigar pela minha vida ao responsável da Pneumologia daquele hospital. E assim fiz, terminando pelas 14:00, e que ficou com o nº 9 (nove).
Era minha intenção ainda nesse dia mandar este relato para os endereçados acima referidos mas tal não consegui por motivos obvios de incapacidade. A cada dia ANDO A LUTAR PELA VIDA, a tentar SOBREVIVER.
Hoje finalmente, deixo aqui este testemunho e uma advogada que fui "arrancar" ao Tribunal de Almada em desespero, está a estudar se haverá aqui matéria para, mesmo eu morrendo, atribuir responsabilidades.
Sinto-me por isso de certa forma aliviado.
Amanhã tentarei levantar-me. Vou ver se chego à loja dos telemóveis, carregá-los e contactar os programas de televisão de Espanha e Portugal, dando preferência aos primeiros por óbvias razões.
Esta carta seguiu igualmente para outros destinatários mas não visíveis por questões de recato.
O clínico, de acordo com relatos de profissionais de Saúde, ao não ter-me internado, deveria ter-me dado alguma medicação para tomar nos dias que meiassem o internamento e principalmente uma "mochila" de oxigénio, assim me foi dito, por entre grande estranheza perante o meu relato.
Agora façam o que têm a fazer.
C.